Artigo: A democracia da mobilidade urbana

Publicado em: 17/03/2014 19:24

“SOCORRO, ELES VÃO ME MATAR, JOGARAM GASOLINA EM MIM E ESTÃO QUEIMANDO O ÔNIBUS”. Esse foi o recado que o motorista Antônio Valdir Rodrigues, com a voz trêmula e irreconhecível, deixou na caixa postal para a gerência da empresa no dia 15 de novembro de 2012, às 16h. O ônibus que conduzia foi mais uma vítima da primeira onda de ataques que chocou o país no final daquele ano.  Valdir é casado, pai de um filho e mesmo recebendo tratamento psicológico pediu afastamento em virtude do trauma que sofreu naquela trágica quinta-feira de novembro.

Apesar do cerne dessas manifestações ter sido o descontentamento com um reajuste tarifário, sabemos que não foi só isso. Reivindicações de toda sorte e tipo, contra a Copa, a corrupção, em prol dos direitos humanos dos detentos, contra políticos e o governo, tiveram como alvo principal os ônibus colocando em risco a vida de milhares de trabalhadores que exerciam seu direito de ir e vir através de um meio de transporte democrático. Foi como se o caos urbano, a carga tributária excessiva e ineficiente, o sistema carcerário falido, os desvios de dinheiro na construção dos estádios e obras públicas e a ausência de investimentos em segurança, saúde e educação fossem culpa dos ônibus e daqueles que dele se utilizam. Por que somente quando os ataques vitimaram um cinegrafista televisivo foram criadas leis que repreendem e regulam as manifestações?

De todas as mazelas oriundas do descaso do poder público – que está mais preocupado em financiar regimes totalitários de maneiras obscuras e se perpetuar no poder com medidas populistas em vez de priorizar os investimentos que são cruciais para o desenvolvimento do país –, cabe ressaltar a desordem no crescimento das cidades e a falta de infraestrutura que deixa o país literalmente estagnado, entupido de carros e sem opções para oferecer um transporte público eficaz. A mobilidade urbana é o assunto em voga e um dos gargalos para o crescimento do país.  Renato Cerqueira, da IBM, citou estudos indicando que em 2016, 25% do PIB do Rio de Janeiro será desperdiçado em consequência da defasagem deste sistema.

As cidades existem há 5.000 anos; os carros há 80. É tão lógico quanto tenebroso acreditarmos que as cidades não foram projetadas para  uso indiscriminado do automóvel e estamos à beira de um colapso urbano. Mas qual a solução? Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, acredita que o transporte público precisa ser mais igualitário e que a mudança é possível, desde que haja mobilização da sociedade e vontade política. Exemplos como a construção de uma rede de ciclovias, corredores exclusivos para ônibus e restrição ao estacionamento aliado à cobrança de pedágios urbanos são medidas capazes de desafogar o trânsito das cidades brasileiras.

São Paulo iniciou a implantação de corredores e ampliou a velocidade média de 13 para 25 km/h, tornando as viagens mais rápidas e aumentando a produtividade dos trabalhadores. Medidas como esta podem transformar este cenário e diminuir a desigualdade quando o assunto é mobilidade. Afinal é mais sustentável nos desenvolvermos através de um modelo de transporte acessível a todos ou fornecendo subsídios pra quem não tem condições comprar automóveis? Peñalosa acredita que um ônibus passando ao lado de carros engarrafados é um símbolo da democracia; é o interesse público acima do particular.

O transporte coletivo promove um deslocamento seguro, econômico e ajuda o meio ambiente; se o governo não priorizar os investimentos no setor, as empresas não investirem em novas tecnologias e a população não  se conscientizar e deixar o carro apenas para passeios e viagens longas, o país vai parar e uma recessão é iminente.

 

Rafael Werner Seára, gerente administrativo da Viação Praiana.